A tragédia da Venezuela está a tornar-se a riqueza de Estarreja

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A norte de Aveiro, gente que fugiu da Venezuela está a encher fábricas, escolas e casas – e a revelar-se o novo motor económico da região. Enquanto o país olhava para a Madeira, acontecia um outro fenómeno no centro do país.

Crispim Rodrigues anda numa roda-viva. Todos os dias o seu telefone toca com notícia de que há mais gente a chegar no avião de Caracas. Na maioria dos casos, trazem uma mão à frente, outra atrás, mais uma mala com a vida que conseguiram encaixotar na fuga. “Que venham cá, então“, anuncia para o outro lado da linha. “Um dia, dois no máximo. É esse em média o tempo que demoro a arranjar-lhes emprego.

Em teoria, Crispim é o responsável de relações exteriores da SEMA, uma associação que reúne três mil empresas de cinco concelhos do norte do distrito de Aveiro: Albergaria-a-Velha, Estarreja, Ovar, Murtosa e Sever do Vouga. Mas, desde que arrancou 2018, tornou-se uma espécie de salva-vidas para os que desaguam numa terra estranha.

“Desde janeiro já arranjei trabalho a pelo menos 300 pessoas. Todos os dias chegam mais e ainda bem. Precisamos deles como de pão para a boca.”

 

Nos últimos meses, o regresso de portugueses emigrados na Venezuela e lusodescendentes tem crescido exponencialmente. “Quantificar um número rigoroso é complexo, a grande maioria tem passaporte português e não é sujeita a controlo à entrada“, admite o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

As estimativas apontam para quatro mil pessoas na Madeira e 1500 no continente, mas o governo sabe que esses números pecam por escassez. “Só os registos de saúde madeirense contam já seis mil nomes. No continente, sabemos que há cada vez mais gente a fixar-se, sobretudo no distrito de Aveiro.” A Estarreja, garante a câmara, chegaram neste ano 500 pessoas. Mas também aqui as contas são por baixo: desde o início do verão, o ritmo das chegadas tem triplicado.

Diamantino Sabina, presidente do município, não podia estar mais satisfeito: o retorno dos emigrantes está a ter um impacto tremendo na economia local, garante. “Chegam com uma enorme vontade de trabalhar e colmatam as necessidades de mão-de-obra do município. Além disso, como estão a fixar-se, potenciam a recuperação das casas desabitadas nas freguesias, e até as novas construções. Tudo isto está a mexer muito com a nossa terra.”

Na Madeira, onde há o dobro dos regressos, não acontece o que se vê aqui. “Claro que também há muita gente competente no Funchal, mas nas ilhas vive-se muito do turismo, enquanto este é o coração industrial do país”, diz José Valente, presidente da SEMA. “Ao longo dos anos de crise, a juventude emigrou e deixou-nos com um sério problema de falta de mão-de-obra, ao ponto de termos empresas que não se desenvolviam mais por falta de trabalhadores. Estes venezuelanos e luso-venezuelanos vêm fazer os trabalhos que os portugueses não querem. São um balão de oxigénio extraordinário para o motor industrial português. Estão a resolver uma falha.”

Crispim ouve e concorda, ele anda a salvar vidas e essas vidas andam a salvar a sua terra. Tem 67 anos, foi aos 5 para Caracas e regressou passados 40. Nunca perdeu o sotaque. “Fui camarada do Hugo Chávez no exército, afiança, “fiz juramento de bandeira e amo tanto a Venezuela como Portugal.” À porta da sua casa há um mastro onde todos os dias hasteia as bandeiras dos dois países.

Pertence à geração dos que partiram sem nada e é ver a história a repetir-se no sentido contrário que o faz passar horas a distribuir empregos, tratar de certidões, inscrever os que chegam no SEF, no consulado, no centro de saúde. Há amigos que lhe dizem que ele é o rio que se desviou do centro de Estarreja: mais cedo ou mais tarde, os caminhos dos que chegam acabam todos por desaguar nele. Encolhe os ombros, tem outra teoria. “Sou só o homem do meio. Estou entre as pessoas que começam a vida de novo e uma cidade que está a nascer outra vez.”

Fonte: DN (Leia o artigo completo)

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