“Por cada estrangeiro em Portugal, há dez portugueses no mundo”

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

O Alto-comissário para as Migrações e presidente do Grupo de Trabalho Migrações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Pedro Calado, é o entrevistado desta quinta-feira do Vozes ao Minuto.

A Alta Representante da União Europeia para a Política Externa, Federica Mogherini, elogiou o trabalho de Portugal no acolhimento de migrantes e refugiados, durante a sua breve visita ao país esta semana, enaltecendo a solidariedade portuguesa como um exemplo a ser seguido por outros Estados-membros.

Esta tem sido, de resto, a posição de Portugal face à crise migratória desde os primeiros sinais de que era necessária uma colaboração alargada dentro da Europa. “Não pode haver a ideia de que vamos resolver local ou nacionalmente um desafio que é global“, refere o Alto-comissário para as Migrações e presidente do Grupo de Trabalho Migrações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Pedro Calado elenca alguns dos focos do Grupo de Trabalho a que agora preside, incluindo um grupo sobre “como comunicar em tempos de crise“, na era da pós-verdade, ou como as migrações “mudam a economia ou a cultura da sociedade dos países onde operam“. Obviamente, nunca perdendo de vista aquilo que é “a matriz humanista da Europa e dos seus fundadores“. Portugal, nesse sentido, não resolverá o problema sozinho, indica, mas estará sempre pronto a fazer a sua parte num esforço concertado.

Não queremos nem negativo nem positivo, queremos realismo no discurso, numa área que se rege muitas vezes pela emoção e não tanto pela razão

Que principais desafios encontrou no Grupo de Trabalho a que agora preside?

Esta eleição para o Grupo de Trabalho das Migrações da OCDE é, de facto, um desafio muito interessante, sobretudo num tema e num momento em que deixou de haver algum consenso internacional. Se durante alguns anos, ou décadas, a maioria dos países que integram a OCDE demonstrava forte alinhamento naquilo que era uma visão positiva e construtiva do desafio das migrações, a verdade é que nos últimos anos fomos assistindo na Europa, mas não só, a alguma tensão nesta matéria. Portanto, este é um momento importante para uma liderança que, sobretudo, na minha ótica, tenderá a procurar exatamente aquilo que nos une, aquilo que são linhas estratégicas que podem ser comuns para um desafio que é global. Não pode haver neste momento a ideia de que vamos resolver local ou nacionalmente um desafio que é global. A minha expetativa e aquilo que vamos fazer nos próximos três anos é procurar nessa plataforma global as linhas de convergência.

Os objetivos passam então por…

Os objetivos creio que serão depois de caráter mais prático. Este é um Grupo de Trabalho e portanto tem uma agenda também muito pragmática. É o Grupo de Trabalho da OCDE que produz anualmente o grande relatório chamado Internacional Migration Outlook, um relatório denso, complexo, que analisa todos os países do mundo, naquilo que são as grandes dinâmicas, as grandes linhas de força das migrações.

Há esse lado mais prático, mais tangível do trabalho do grupo, bem como alguns estudos que vamos fazendo. Este ano, por exemplo, vamos estar muito focados na forma como se mede o impacto das migrações, como é que mudam a economia ou a cultura da sociedade dos países onde operam. Isso é importante hoje em dia para termos também mensagens fortes que possam, de certa forma, desmontar algumas narrativas menos positivas nesta matéria.

Estamos, por exemplo, também no âmbito da OCDE a lançar um grupo novo sobre comunicação. Como é que conseguimos comunicar em tempos de crise, mas não só. Como é que conseguimos, com factos e com dados científicos, contra-argumentar aquilo que são as ‘fake news’, aquilo da pós-verdade. Estamos num grupo piloto com outros Estados-membros da OCDE, exatamente a trabalhar esta questão dos factos e da construção de narrativas realistas. Não queremos nem negativo nem positivo, queremos realismo no discurso, numa área que se rege muitas vezes pela emoção e não tanto com a razão. Esta é uma pista daquilo que vamos começar a fazer nos próximos meses e nos próximos anos.

Creio que o pico da crise – se queremos chamar crise àquilo que aconteceu em 2015 – já passou

Essa construção de narrativa menos positiva tem impacto nas comunidades onde refugiados ou migrantes se procuram estabelecer. Na Itália investigam-se alegações de violência contra estas pessoas, na Bulgária há patrulhas paramilitares para os “caçar”. Acha que estes comportamentos  poderão perpetuar-se?

Creio que o pico da crise – se queremos chamar crise àquilo que aconteceu em 2015 – já passou. Hoje em dia os números que nós temos, por exemplo, de chegadas à União Europeia estão a cair drasticamente, apesar de não ser essa a perceção e de continuarmos a falar numa crise migratória. A verdade é que se olharmos para os números com a frieza que isso exige, vemos que em Itália, por exemplo, do ano passado para este ano as chegadas caíram 80%. Estamos em mínimos anteriores ao período de 2015, quando houve, sim, um grande fluxo.

Precisamos de voltar a essa realidade, a esses dados, a esses factos, e de não construirmos [narrativas] com a perceção, ou com aquilo que muitas vezes até são narrativas colocadas na opinião pública de forma estratégica. Portanto esse é o primeiro passo que é importante dar, é olharmos para os factos, e aí a OCDE teve um papel muito importante e continuará a ter.

Cá em Portugal também o temos feito, por exemplo, através do Observatório das Migrações, que é, a partir de fontes estatísticas administrativas, com a frieza a que os dados nos obrigam, olharmos para estes fenómenos exatamente com esse distanciamento e com esse posicionamento mais alheado das emoções. Isso parece-me fundamental.

Depois, acho que um segundo ingrediente contra esta emergência de algum populismo, além dos factos, é a memória. A memória de nós próprios, portugueses, como emigrantes pelo mundo – relembro, por exemplo, que por cada estrangeiro que temos em Portugal, temos dez portugueses no mundo. O mesmo acontece com a maioria dos países europeus. A seguir à Segunda Guerra Mundial houve pessoas refugiadas da Hungria, da Polónia, da República Checa.

A Europa, sobretudo, tem este dever de memória. Porque é que foi criada a União Europeia? Porque é que foram criados mecanismos como a Convenção de Genebra? Foram exatamente criados para nos proteger a nós, cidadãos da União Europeia, daquilo que foram as maiores tragédias do século XX. Este reavivar desta memória parece-me vital até para as novas gerações.

Fonte: Noticias ao minuto (Leia o artigo completo)

Quer morar em Portugal?

Saiba como a LuResolve pode ajuda-lo no seu plano de imigração.

Agende uma Web Reunião

Whatsapp, Skype, Hangout ou Zoom – VALOR REDUZIDO ATÉ JUNHO

Diga olá!
Precisa de ajuda?
Olá, como posso ajudar?